Queria continuar lendo o Sabino. Na verdade, ler é a atividade que mais me tem dado prazer nos últimos dias. O que me ocorre é que estou sem voz. Não por força da doença, mas por força de vontade já que levei um pitão do meu médico. O otorrinolaringologista, com todas as letras a que tem direito o seu título de bacharelado, me havia dito para tomar os comprimidos e fechar o bico; tomei os comprimidos, mas continuei a falar como nunca. Deu no que deu: agora não posso nem pensar em som partindo de mim. (A não ser os sons fisiologicamente inevitáveis. Mas evitemos os detalhes).
A Miguelli, minha namorada que às vezes faz papel de anjo, mãe, professora, enfermeira (este quase sempre já que sou um doente profissional) e, felizmente, também o de namorada, vive levantando a sua voz para mim quando eu penso em usar a minha. Sem voz ativa e sendo ela a voz da razão continuo no meu papel de afônico.
Mas, diga-me você: já ficou sem poder falar? (Antes que me demore demais e me esqueça, eu estou com laringite. E como dizia minha professora de canto, a laringe é por onde se canta o lá, lá, lá. Portanto, se come pela faringe.) Voltemos à laringe inflamada.
Se você, meu amigo leitor, já precisou ficar sem falar ou perdeu a voz por força da doença deve ter idéia do que estou passando. Um impotente. É assim que tenho me sentido. Quanto à impotência sexual não sei se há semelhanças, mas de qualquer forma, não ter potencial para realizar uma simples atividade como abrir a boca e falar é deprimente.
No início, até que tem lá a sua graça esta história de mudinho. É um constante jogo de mímica e muito feliz fica quem consegue entender o que eu quero falar. Até a Miguelli ficou toda empolgada com a idéia de poder falar, argumentar, retrucar e receber de volta apenas um silêncio de aprovação. Mas com eu disse, era tudo empolgação inicial. Passados quatro dias (nem parece tanto tempo assim, mas para quem faz Comunicação e requere palavras faladas a cada minuto é tempo pra mais de metro), percebo que minha namorada, meus amigos e eu já estamos de saco cheio da “brincadeira”.
O Zézão, que de José não tem nada, afinal o nome dele é Robson, já me fez ameaças de arrancar, com as próprias mãos, a minha garganta e por outra no lugar. O Preto, que inicialmente me fez companhia afônica, já que de tanto gritar num jogo ficou rouco, agora já melhorou e me faz sentir uma inveja do tamanho do Sergipe. Falo do Sergipe porque é pequenininho. Eu não sou invejoso. É só por ora. E, por fim, cito a minha namorada-enfermeira-anjo, que já não deve mais agüentar ter que me dar tanta bronca por eu soltar sussurros periodicamente.
Felizmente, amanhã pela noite eu já poderei falar. Não à vontade senão estrambica-se tudo novamente, mas poderei falar como uma pessoa moderada, feliz e, é claro, potente. Amanhã eu volto a ser eu mesmo já que da forma como tenho me portado nos últimos dias nem eu chego a me reconhecer.
Como toda experiência, essa minha de mudez – por favor, não confunda com nudez – vai me trazer conseqüências. E acho que já sei qual será o resultado: vou começar a medir mais as minhas palavras, considerando que todo esse silêncio a mim imposto me fez valorizar a oralidade. Piadas, fofocas, trivialidades e banalidades ainda têm espaço, afinal elas são muito bem-humoradas e bem-vindas. O detalhe é que agora me importo mais com as palavras de silêncio, mas aí já entramos em outra crônica e talvez a minha voz ainda não agüente tanto assunto.

