
Ok. Falar sobre uma competição entre policiais e jornalistas para resolver um caso não é uma proposta tão inovadora, já que há casos de repórteres que buscam ser mais rápidos que policiais para resolver os mistérios de um crime. Imaginar uma competição entre essas duas classes de profissionais é praticamente parafrasear a realidade.
Mas, e se esta disputa deixasse de ser disfarçada e se tornasse explícita? Uma espécie de jogos olímpicos dos casos investigativos? Tentemos.
- Senhores jornalistas e policiais. Em alguns minutos, vocês estarão envolvidos em uma disputa que deve definir quem de vocês é mais eficaz no que diz respeito à investigação. Armas ou blocos de anotação? A lei da farda ou a persistência jornalística? Vocês é que darão a resposta.
Quem dava as instruções era um general do exército brasileiro.
- Um dos empresários mais influentes de São Paulo foi encontrado morto às 10 horas da manhã desta quinta-feira. Ele estava estendido em seu escritório e foi visto pela primeira vez nestas condições pela empregada doméstica. Isso é tudo. Não há mais informações sobre o caso. Na função de oficial do exército brasileiro, eu declaro abertos os Primeiros Jogos Olímpicos de Investigação.
E saíram todos aos tropeços da sala de reuniões. Cerca de 50 jornalistas e 150 policiais. Os primeiros a agir foram os jornalistas. Um ligou para uma fonte fiel.
- Alô, Macedo! Aqui é o Alberto, da Folha da Capital.
- Opa! Tudo bem?
- Mais ou menos. É que aconteceu um assassinato aqui na cidade e preciso de algumas informações sobre o caso.
- Ah, você deve estar falando do assassinato do empresário Bittencourt, não?
- Esse mesmo, rapaz. É por isso que eu gosto de conversar com você. Então, me dá umas informações rapidamente. Desta vez, além de ter que escrever sobre o crime eu também estou participando de uma competição de investigação.
- Ah, é?
- É. Então, fala aí.
- Então, rapaz. Eu também tô nessa.
- Como assim, Macedo? Você tá envolvido no crime? Não acredito!
- Não, meu amigo. Eu também tô nessa da competição. Eu achava que tinha te visto lá na sala de reuniões com o general e agora confirmei que era você mesmo.
- Hmmm...
- Então, sabe como é, não? Vou ajudar a classe nesses jogos. Fica pra outra.
- Eu nem queria mesmo. Tchau.
Emburrado, o jornalista desligou o telefone e tentou pensar em outra pessoa pra saber mais sobre o caso. Não conseguiu porque era muito limitado e tinha uma fonte só. Ao menos, começou a aprender que era necessário ter uma vasta lista de fontes.
E por ter este tipo de lista, outro repórter começou a desvendar o caso. Chegando ao local do crime de helicóptero, descobriu que, mesmo pelo ar, não tinha sido tão rápido quanto seus adversários. Já que se tratava de uma competição, os policiais haviam mobilizado toda uma equipe para ir até o local do crime e começar a fazer perguntas.
No entanto, quem fez a pergunta certa foi o tal repórter do helicóptero. Abriu o caderninho com fontes e ligou para quem não estava envolvido na competição: o sócio do empresário Bittencourt.
Felizmente, o jornalista tinha feito uma reportagem sobre empreendimentos e teve o sócio da Albuquerque & Bittencourt como a principal referência sobre o assunto. A empresa era uma das que mais crescia em todo o País.
- Alô! Albuquerque?
- Sim.
- Aqui é o Thomaz, da GTV.
- Hmm...
Parecia que o Albuquerque não queria colaborar.
- Então, rapaz. Eu queria estender minhas condolências pela morte do seu amigo.
- Que amigo?
- O Bittencourt.
- Ah...
- Então, é... Você sabe de alguma coisa?
- O que é que você quer, hein, rapaz?
- Eu só gostaria de saber se o Bittencourt tinha alguns inimigos, alguém que poderia se aproveitar da situação.
- Não.
- Não, o quê?
- Não, eu não sei de ninguém.
- Hmmm...
- Não mesmo?
- Tu! Tu! Tu! Tu! Tu! Tu!
O Albuquerque não tinha gostado mesmo das insinuações do jornalista. Mas como este estava mais preparado que o outro, ligou para uma fonte diferente: o contador da empresa.
- Ô Vieira, quanto tempo!
- É o Thomaz?
- Isso, mesmo.
- Ô rapaz, quanto tempo mesmo.
- Vieira, eu tô precisando de uma informação.
- O que você precisar.
- A morte do Bittencourt.
- Que tem a morte dele?
- Eu quero saber o que você sabe.
- Hmmm...
- Eita! Tá difícil hoje!
- Calma. Eu vou te ajudar. Como somos amigos de infância eu vou te dar uma força. É para aquelas Olimpíadas de Investigação, não é?
- Como é que você tá sabendo?
- A mídia anda divulgando. Acho que é para dar a impressão de que estão na frente. Mas pelo que eu percebo estão dando só tiro no escuro.
- É mesmo rapaz?
- Ô. Andaram falando que foi um assassinato encomendado. Dizem que quem mandou foi o sócio do Bittencourt, o Albuquerque. Mas é mentira. Os dois se davam bem até. O Albuquerque se dava tão bem com o sócio dele que, nas últimas férias, o Bittencourt estava tão ocupado pra levar a esposa pra viajar que pediu para o sócio levá-la para o Havaí.
- Ih! Aí tem coisa.
- Como assim, Thomaz?
- Férias no Havaí com a mulher do outro tem resultados inesperados.
- Tipo...
- Não sei, mas nunca deixe sua mulher passar férias com um cara solteiro, rico e boa pinta no Havaí.
- É mesmo, rapaz! Eu ainda não tinha pensado nisso.
- Me passa o telefone da viúva.
- Não vai ofender a coitadinha, Thomaz.
- Não. Eu só vou perguntar algumas coisas.
- 3836-4543.
- Certinho. Anotado. Abraço, Vieira.
Desligou e não sabia que havia sido grampeado. O amigo Vieira estava envolvido em esquemas de financiamento ilegal de campanhas políticas e por isso tinha seu telefone nas mãos, ou melhor, ouvidos da polícia. Assim, quando o jornalista foi ligar pra viúva recebeu apenas a linha ocupada e, pouco tempo depois, a informação pela rede de TV concorrente de que a polícia ia prender a esposa de Alfred Bittencourt por ter planejado o assassinato do marido para encobrir um romance extra-conjugal.
Com a competição ganha pelos policiais, o jornalista resolveu voltar ao local onde a maior parte dos outros repórteres estava: em frente a mansão dos Bittencourt, tentando se justificar por não terem conseguido vencer a competição.
- Esses policiais também... Como a gente vai competir com o poder público? Eles têm autonomia pra fazer tudo o que quiserem. Assim não dá. Essas olimpíadas são uma furada.
- É mesmo.
Em meio as reclamações, o tal jornalista da GTV viu uma mulherzinha com avental sujo de comida chorando próximo a uma árvore. Sentiu dó e foi tentar consolar a moça.
- Olá. Você era parente do Bittencourt?
Pelas roupas simples não devia ser mesmo. Mas a pergunta foi suficiente para fazer a mulher voltar a chorar e tentar responder entre soluços.
- Não. Eu... era... só... a... empre...gada.
- Hmm. E você foi a primeira a ver o Bittencourt morto, não?
- A... ham.
A empregada não parava de soluçar e chorar. O jornalista, um pouco mais humano, resolveu improvisar algumas palavras de conforto.
- Então, não se preocupe. Os culpados já foram encontrados. A polícia descobriu que a esposa do Bittencourt e o Albuquerque armaram o assassinato.
- Buáááá!
Com um choro tão chorado, o jornalista achou que o problema era mais grave e tentou racionalizar. E chegou a uma conclusão: a mulher chorava porque não teria mais onde trabalhar. Morto o patrão e encarcerada a patroa, agora ela não teria mais o salário garantido.
- Já sei, moça. Se o problema é trabalho eu chamo você pra fazer faxina em casa.
Ela parou de chorar um pouco e resmungou limpando o nariz.
- Tá bom. Mas não é isso, não senhor.
- O que foi, então moça?
- Promete que não conta pra ninguém?
- Prometo – disse ele, tendo a certeza de que a mulherzinha não teria nenhuma informação digna de confidência.
- Fui eu.
- Foi você, o quê?
- Fui eu que matei o Bittencourt.
- Como assim, mulher?!
- Foi assim, ó. Eu tava lavando as folhas de alface e os tomates pro almoço. Como o seu Bittencourt é muito exigente, eu estava usando luvas para não contaminar as verduras.
- Chato esse Bittencourt, não?
- Pois é. Mas, continuando. Aí, com as luvas escorregando de tão molhadas eu fui pegar a faca para fatiar o tomate. Foi então que o Bittencourt me chamou e eu virei. O problema é que eu levei um susto e a faca escorregou da minha mão.
- Tá, mas e daí?
- Daí que, quando eu virei é que a faca escorregou e foi pra cima do seu Bittencourt. No lado esquerdo do peito. Que nem a música diz.
- Não acredito!
- Pois é. Mas, já que o senhor prometeu não falar nada vamos decidir o meu novo salário?
Não teve novo salário. Louco para ganhar a competição, o jornalista dedurou a empregada e garantiu a vitória e as medalhas de latão pintado de dourado para os profissionais da imprensa.
Feliz ficou a mulher do Bittencourt. Com o dinheiro do marido, confirmou seu caso com o Albuquerque e foi passar novas férias no Havaí.
Presa, só restou a empregada continuar chorando e se lamentando por falar demais. Além, é claro, de odiar o telejornal local da GTV.
Jogos olímpicos da investigação
Oscar Tupiniquim
- E o Nascimento de melhor filme estrangeiro vai para... Sad Memories, de Steven Spielberg!
Spielberg como diretor de um filme estrangeiro? Como assim? E que raios é um “Nascimento”? Simples: é o Oscar na versão tupiniquim. É o cinema de Sinatra ficando para trás e quem manda agora é o cinema da terra de Tom Jobim.
Bem, depois de um pouco de rima e poesia, a explicação.
Após o sucesso de Tropa de Elite nos cinemas brasileiros, norte-americanos e camelódromos, a produção cinematográfica do Brasil ganhou status, importância e, principalmente, dinheiro. Alguns críticos de cinema yankees até tentaram conter o avanço da “onda verde e amarela”, mas a qualidade dos roteiros e da interpretação dos atores brasileiros emocionou corações ao redor do planeta e encheu os bolsos de produtoras, distribuidoras e vendedores ambulantes. O cinema brasileiro ultrapassou Hollywood.
Uma das primeiras conseqüências dessa internacionalização maciça da produção brasileira aconteceu com os atores nacionais. Antônio Fagundes, Regina Duarte e Bianca Rinaldi (Quem???) deixaram as capas de Contigo! e Caras para ilustrar as internacionalíssimas People e Vogue. Facilmente, Reinaldo Gianechinni e Thiago Lacerda ocuparam as posições anteriormente pertencentes a Brad Pitt e Johnny Deep. Kaiky Brito acabou se tornando uma espécie de Leonardo Di Caprio na época de Titanic.
E as coincidências entre os dois atores não ficaram apenas no fato de os dois serem considerados “gracinhas” e promissores no mercado cinematográfico. Assim como DiCaprio despontou em um longa que contava a história de um navio que afundou, Kaiky alcançou o estrelato e os porta-retratos de meninas ao redor do mundo após o brilhante Bateau Mouche, uma noite de brilho e terror.
No entanto, o estrelato não traz apenas luzes. Os paparazzi invadiram o território brasileiro e passaram a perseguir as novas estrelas internacionais. “Juliana Paes vai à praia e não tem mais o mesmo derrière de antes”. “Stephany Brito namora outro jogador de futebol. Ela é maria-chuteira?” “Vera Fischer dá ‘pití” e tenta se matar outra vez”. “Dercy Gonçalves completa 120 anos e recebe centenas de convites para estrelar filmes de terror”. Era o ônus de se tornar internacionalmente famoso.
Mas quem colheu as conseqüências do sucesso brasileiro no exterior não foram apenas os atores. A língua portuguesa também se propagou mundo afora. Assim como um dia o cinema norte-americano colaborou com a divulgação da língua inglesa, agora o brazilian way of movies, ou melhor, a forma brasileira de cinema, fez com que o português se tornasse a segunda língua mais falada no mundo.
Digo segunda porque ninguém é capaz de ultrapassar os chineses em número de filhos. Sendo assim, o mandarim (e pra quem ainda não sabia, saiba agora que o que se fala na China não é chinês e, sim, mandarim) continuou sendo o idioma mais falado do globo.
E por falar em globo, a Globo deixou de lado as novelas e passou a se dedicar exclusivamente ao cinema. Mas como não queria deixar de passar o folhetim televisivo todas as noites, passou a importar os melodramas mexicanos. Que importavam alguns reais em publicidade todas as noites se era possível arrecadar milhões com um filme de Rodrigo Santoro? Viva o cinema brasileiro!
Muito mais podia ser dito sobre as mudanças ocorridas e o dinheiro obtido com a nova ordem no cinema mundial. Mas é preciso apenas mais um acontecimento para comprovar o sucesso absoluto do cinema brasileiro: a instituição do Nascimento. Hã?
Como Tropa de Elite havia sido o filme que delimitou a era pós-Hollywood, o capitão Nascimento, personagem de Wagner Moura, ganhou status de ícone da sétima arte. Sendo assim, nada mais justo do que nomear o maior prêmio do cinema mundial como Nascimento. Se o antigo prêmio norte-americano podia ter o nome de Oscar, o brasileiro podia, ou melhor, devia ter um nome masculino: Nascimento.
Só causava certa estranheza a frase dita após o vencedor do prêmio Nascimento receber o troféu em forma de um capitão do BOPE segurando um fuzil:
- Agora que você já está com o prêmio na mão, queridão: pede pra sair.
E o sujeito descia do palco. Ao menos, descia feliz da vida.
Quem liga pras bodas de ouro?
- Ela já está chegando. Dizem que o vestido dela é lindo. Todo dourado.
- Deve estar maravilhoso! Mas por que a cor?
- Ai, menina! Será que é porque estão comemorando as bodas de ouro? Dã!
- Ah...
- Agora fica quieta que o noivo já está entrando.
O noivo também vestia dourado. Não como uma drag-queen. Afinal, tinha mais de setenta. Mas a gravatinha dourada combinava bem com a ocasião.
Aliás, tudo era dourado. As paredes haviam sido pintadas de dourado, os enfeites eram dourados, os docinhos eram dourados, as flores eram douradas, vários convidados usavam dourado, os instrumentos da bandinha eram dourados (se bem que quase todos eles são), o tapete era vermelho. É que não haviam encontrado um tapete dourado às pressas. Adiaram tanto a escolha do tapete que, no fim das contas, não acharam um da cor do ouro e ficaram com o vermelho mesmo.
Com o noivo postado à frente, agora quem entrava eram os padrinhos. Euclistina, madrinha da noiva, foi a primeira a entrar. Era a única que conseguia caminhar sem a ajuda de algum aparelho, e, por isso, conseguia andar mais rápido, sem empacar a fila. Em seguida, veio Adamastor, por parte do noivo, acompanhado de sua segunda esposa e da bengala. Na seqüência, Menengarda e Eufrasina. Ambas na companhia do andador. Só a entrada dos padrinhos levou quase vinte minutos.
Teria sido menos, talvez quinze minutos, não fosse a insistência do último padrinho, um general aposentado, que quis fazer surpresa e entrar sem o seu andador. Dizia que ainda tinha forças para se portar como há cinqüenta anos.
Durou trinta segundos a teimosia do velho general. Se espatifou no chão, depois que tentou se apoiar, sem sucesso, em um enfeite de flores. Flores, vaso dourado e o velhinho ficaram no chão por uns trinta segundos antes de serem socorridos. A demora foi motivada pela perplexidade de todos os presentes ante a declamação de dezenas de palavrões pelo ex-general, enquanto este rolava no chão a procura de sua dentadura.
Refeitos do susto, estavam todos prontos para a entrada da noiva. A marcha nupcial começou a ser tocada. Não como há cinqüenta anos, porque naquela ocasião os noivos não conseguiram encontrar uma igreja com piano. A noiva acabara entrando em silêncio mesmo. Mas agora, ela vinha sob a influência da clássica música dos casamentos, dentro de seu vestido bordado com flores douradas. Parecia um grande pedaço de ouro floreado.
- Queridos... Queridos...
O pastor havia esquecido o nome dos noivos. Afinal, estava com mal de Alzheimer e já contabilizava noventa anos. Mas a noiva havia insistido para tudo ser muito parecido, senão igual, há cinqüenta anos.
- Belize e Edgar. – Foi o sussurro.
- Héin?
- Be-li-ze e Ed-gaaar. – Falou discretamente e silabicamente um dos padrinhos.
- Ah, sim. Queridos Beliche e Edmar.
Não adiantava insistir. Já que nem tudo podia ser como há cinqüenta anos, os nomes dos noivos também entravam na dança.
- Estamos neste lindo lugar para renovar mais uma vez estes lindos votos. Há quarenta anos, vocês...
- É cinqüenta.
- Isso. Quarenta anos...
- É cinqüenta. Faz cinqüenta anos que estamos casados.
Quem insistia era a noiva. Ela podia até aceitar ter seu nome trocado. Mas o tempo em que estavam juntos, ela e o esposo, era um troféu. Não poderia ser adulterado de forma alguma.
- Ah, sim. Então, há cinqüenta anos, este belo casal se casava nesta mesma data e neste mesmo local.
Na verdade, o local não era o mesmo. Mas como tanta coisa já não era a mesma...
- Treliche, você aceita renovar os seus votos de lealdade e amor para com o seu marido?
- Sim, pastor. Eu aceito. Ah, e meu nome é Belize. Be-li-ze.
- Ok, Vanize. Agora você, Elimar. Aceita renovar seus votos de lealdade e amor para com sua adorável esposa...
- Belize, pastor. Belize.
- Monize.
Tensão. Não por culpa do pastor ter errado mais uma vez o nome da noiva. Já haviam se adaptado. O fôlego suspenso era causado pela demora do noivo em responder. Ele olhava para o chão, ao invés de fixar seus olhos nos olhos com sombras douradas da noiva. Esta dava tapinhas no braço do marido:
- Para de enrolar, Edgar. Fala logo que aceita.
Mais espera. Mais tapinhas.
- Ei, tá achando que isso aqui é circo pra você ficar fazendo uma palhaçada dessas, Edgar? Fala logo que me ama, homem.
Aí o Edgar não agüentou:
- Não. Não aceito nada não. Estão vendo isso aqui? Esses tapas? Essa pressão psicológica? Ouço isso há cinqüenta anos. E vocês acham que eu vou renovar meus votos de fidelidade e amor? Nem morto! Ou melhor, morto, quem sabe, seria melhor.
- Edgar! Mas são nossas bodas de ouro!
- Ah! Quem liga pras bodas de ouro? Tô fora!
E saiu pelo salão. Pegou o guarda-chuva e se mandou.
Em prantos, a noiva não sabia o que fazer. Só sabia chorar e falar que não entendia o que estava acontecendo.
- Se acalma, minha flor. Bebe esse copo de Coca.
- Coca? Não tem água com açúcar?
- Não tem. Só tem os refrigerantes da festa. A água do salão acabou.
- Pega da chuva, então.
- Mas não tem açúcar, flor.
- Ah! Então não quero.
E voltou a chorar.
No fim das contas, a noiva foi levada pra casa pelos filhos e tentou uma reconciliação com o marido. Nada feito. Agora, ele queria era paquerar as mais novinhas.
Quem acabou não entendendo nada foi o pastor idoso. Enquanto comia sozinho o bolo de casamento, ele perguntou para o ex-general:
- Ué, você sabe onde foi o Eliomar? Ele disse alguma coisa sobre “vou lá fora”. Tá demorando, não?
Loucura, loucura, loucura
Quando alguma coisa fora do comum acontece, o Zé, que, como já disse em uma outra crônica, não tem nada de José, na verdade se chama Robson, geralmente é o primeiro a dizer: Locão! Assim mesmo. Sem o “u” entre o “ó” e o cê. Acho que dá uma sonoridade mais espontânea para a palavra. Se dissesse “loucão”, talvez parecesse ter toques de intelectual. E a intenção dessa interjeição inventada não é mesmo essa. Quer dizer mesmo é que algo é incrível, beirando o impossível.
Sendo assim, aproveito o uso da palavra e insiro neste texto uma coisa de doido varrido que várias vezes me passa na cabeça.
Já comentei com alguns amigos que, em cerimônias de casamento ou em momentos onde há um discurso formal, como uma formatura, fico imaginando como seria se, de repente, eu levantasse, me dirigisse ao palco ou púlpito, e começasse a gritar e dançar. Não precisa ser uma coreografia específica, como a conga ou o “créu” (que por sinal já não agüento mais ouvir quando passo em camelôs que vendem DVD). Qualquer coisa que lembrasse uma dança já estaria valendo.
Essa idéia já me ocorreu mais de uma dezena de vezes. Em algumas delas eu não preciso nem me dar ao trabalho de dançar ou soltar o grito. Penso em simplesmente subir ao palco e dar um bonito soco em quem estiver com o microfone. Imagino a reação das pessoas olhando a cena. “Locão!” Essa seria a palavra do Zé se olhasse a cena da platéia. Agora, se ele fosse o noivo ou a pessoa que estivesse segurando o microfone, talvez tivesse outras intenções. Matar-me quem sabe.
Apesar de ter essas intenções insanas em várias ocasiões, reflito que elas não são o que se pode chamar de “atitudes comuns”. Isso parece óbvio. No entanto, eu geralmente sou classificado como um sujeito normal, do tipo que quer casar, ter família, um bom emprego e fotos na sala de estar. Por que eu, um sujeito normal, penso em fazer uma coisa de doido em cada casamento que vou? (Podem ficar sossegados, amigos que pensam em se casar. Eu não seria capaz de agir de acordo com esses pensamentos. Um mico desses, eu não estaria disposto a pagar de forma alguma).
Comecei a perguntar aos meus amigos e conhecidos que coisa maluca às vezes lhes dá vontade de fazer, mas, com certeza, nunca fariam. Foi uma boa terapia pra perceber que não estou sozinho no mundo das loucuras. Na verdade, ninguém está.
Um dos primeiros que converso me confessa que tem uma vontade louca de esfaquear alguém. Na verdade, não é apenas enfiar a faca em um inimigo ou coisa assim. Diz ele, que a vontade vem quando conversa com alguém em um papo informal, embaixo de uma árvore, com o vento soprando. Aí, ele imagina que pede ao amigo que espere um momentinho e coloca a mão no bolso, como se fosse atender o celular ou pegar a chave do carro. Neste momento é que o plano se concretiza e ele tira a faca do bolso e enfia no bucho do sujeito. Tudo bem rápido, pra causar espanto. (Se bem que, lentamente, a ação também seria de espantar).
Depois, ele disse que assistiria calmamente a morte do amigo, a chegada da ambulância, os policiais o questionando e, por fim, a sua prisão. Mas ele garante: nunca faria isso. “Mas é como a tua idéia de subir no palco dançando e gritando”, ele diz. “Me vem a vontade na cabeça e só”.
Sinto-me um pouco mais normal e questiono agora uma mulher sobre uma doideira que lhe passa na mente. Ela confessa que sua loucura é menos violenta que o esfaqueamento, mas acontece todos os meses. Pra ela, interessante mesmo seria poder furar a fila inteira do banco em dia de pagamento. E, além disso, quando chegasse ao caixa e tivesse dezenas de olhos a fulminando, diz que viraria pra todos e diria: “Furei mesmo, e daí?”
Seria sua realização. Melhor que isso, só se alguém comprasse a briga, tipo uma gordona com porte de leão-marinho. Sairiam as duas rolando pelo chão do banco, puxando cabelos e metendo tapa na cara. “Tipo baixaria, sabe”, diz minha amiga. “Tipo baixaria”, eu questiono. Isso é o auge da baixaria! O Oscar do barraco!
Ela diz que, mesmo assim, acharia o máximo. Mas também se conforma: “Não faria mesmo”.
Continuo minha saga em busca de loucuras e ouço uma declaração surpreendente: “Sabe, eu penso em beijar homens”. Não. Não foi uma amiga. Paro a conversa com ele na hora.
Agora ouço o desejo que outro amigo tem: bicudar e encher de socos aqueles mascotes com roupas fofas, enchimentos e rostos sorridentes. Como os de futebol americano. “Eu morro de vontade de espancar um boneco daqueles. Chegar no socão, sabe?” Imagino. E começo a rir sem parar. Visualizo meu amigo e mais uma série de crianças batendo no bichinho. E o mascote lá, com seu rosto feliz.
“Aliás”, complementa meu amigo, “eu já fiz isso. Uma vez, no Parque do Gugu, dei um soco na barriga de um bichinho da Fujifilm, se não me engano.” Ah, se todos pudessem realizar esses sonhos... Muita gente estaria no hospital, no caixão, ou, então, detrás das grades por atentado ao pudor. Já me explico.
Perguntar sobre coisas que as pessoas pensam em fazer, mas nunca fariam, é abrir as portas da imaginação. Melhor: é escancará-las. Dessa forma, tem gente que pensa em safadeza mesmo. Tipo, fazer na frente de todo o mundo com a Silvia Saint e tal. Mas o espaço não foi reservado pra esse fim. Prossigamos.
Ouço um rapaz dizer que tinha intenções malucas na infância. “Quando era pequeno, morria de vontade de xingar minha mãe quando ela me batia com a cinta”, confessa. E ele queria falar palavrão cabeludo mesmo. Que deixaria a mãe de cabelo em pé. “Mas isso não é loucura”, eu questiono. “É que você não conhece a minha mãe”, ele se defende e me deixa calado.
Continuo a angariar outras maluquices entre meus amigos e descubro algumas que, assim como a de xingar a mãe, não parecem tão doidas. Mas quando se avalia toda a realidade, compreende-se a insanidade da ação.
“Sabe, eu já quis ser vereador. Vê se pode?” Concordo rapidamente. Deve ser loucura mesmo se meter em política. Afinal, vender seus princípios para continuar no poder é insanidade total.
Vassouradas na cabeça de quem empaca no meio do shopping, tapas em autoridades, tapas em namoradores da sua namorada com direito a sotaque de carioca (“Aí, mermão! Tá olhando o quê? Fica experrrto”), segurar em cerca elétrica, pular do prédio e não morrer, enfim, descubro mais uma série de loucuras que, se realizadas, causariam olhos roxos, dentes quebrados ou um ataque cardíaco.
Ainda tenho tempo de ouvir mais uma idéia. Essa não é doida, mas é interessante. “Eu já quis participar do Big Brother”. “E faria o quê na fita pra ser classificado”, eu pergunto. “Nada”, é a resposta. “Ia ficar 30 segundos olhando pra câmera sem dizer nada. Só olhando seriamente. Sem rir. Com cara de bravo. Já pensou?” “Ia ser inovador”, eu penso.
Em minha conversa final com o doido da faca eu proponho: “Quem sabe eu não realizo a minha loucura no seu casamento. Que tal? Eu não cobro nada”.
“Isso”, ele responde. “Aí eu enfio a faca na sua barriga. Também não vou cobrar nada”.
Desisto da idéia.



